Patrícia Castellani

Destilo meus versos pelas ruas, cantando em prosa o que me diz o amor. Deixando aos poucos o dia… Para que a lua me faça acompanhar.


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Vidas Vazias, Amores Descartáveis

Uma das minhas paixões é a música. Ouço música em casa, no carro, trabalhando, antes dormir.

Recentemente, recebi de um amigo uma mensagem onde ele indicava uma canção. Gostei! Gostei muito! Mas, fiquei bastante reflexiva enquanto ouvia aquelas palavras distribuídas numa melodia elaborada. Havia naquela canção algo que há muito tempo vem se perdendo. Transparecia uma preocupação com as metáforas que falavam de amor, como quem cuidadosamente arruma a casa para receber um amigo querido. Ai que saudades do nosso romantismo!

A nossa música passa por um momento estranho – se é que se pode chamar assim. A maioria fala de vidas vazias, amores descartáveis e mal sucedidos ou, na melhor das hipóteses, baladas e “pegação”.

O que aconteceu com Vinícius, Tom, Chico, Lupicínio, e tantos outros que nem daria para citar? Graças a Deus ainda temos alguns fiéis representantes da arte que se põem a caminho e nos resgatam a tempo. Mas, no geral, ninguém mais se lembra da “luz difusa do abajour lilás”, de “querer ficar no seu corpo feito tatuagem” ou dos “meus olhos molhados, insanos dezembros”. Havia sim os amores sofridos, as ausências sentidas, “a beleza que não é só minha”. Mas, com muita gentileza, encanto pelo ser amado. Parece que até a dor era mais bela. Doía menos. Ou pelo menos se dizia ainda esperançosa pelo amor.

Ontem, 25 de janeiro, foi aniversário de Antonio Carlos Jobim, uma de nossas maiores estrelas na constelação dos sons. Faria 87 anos. E eu fico aqui pensando… O que será que ele diria da nossa música hoje?

Para lembrar dos bons tempos com um dos excelentes modernos: Jorge Vercilo canta Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo.

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Estamos todos Sozinhos

“Acredito que estou no inferno, portanto estou nele” (Arthur Rimbaud)

É curioso quando sentimos saudades de coisas que de fato não vivemos. Atualmente estou assim. Sinto falta do tempo em que pessoas eram vistas como semelhantes.

Apesar da tecnologia e das redes sociais nos trazerem a sensação de que o mundo nos pertence, ao ler os jornais pela manhã ou ligar a TV nos damos conta do quanto estamos sós. É isso mesmo! Sozinhos. Confinados em nossas telas e teclados, observando a todos sem sentimentos próprios e nos tornando cada vez mais paranoicos entre senhas e apelidos.

O mundo tornou-se uma ameaça aos que se consideram acima de qualquer suspeita e as discussões virtuais surgem aos milhares todos os dias, sem que haja uma explicação real à sua existência. Não questionamos. Toda palavra é dissecada, todos os gestos analisados, toda opinião criticada com a ferocidade de uma matilha de lobos perseguindo sua presa. Vivemos fechados em nossas fortalezas com alarmes e cercas elétricas e julgamos. E como julgamos! Temos medo de sair, de confiar nosso número de telefone, de dizer ‘eu te amo’, pois temos sempre uma teoria de conspiração rondando nossas cabeças e nos fazendo pensar em que momento alguém usurpará de nós a nossa tão valiosa privacidade.

Quem são nossos amigos? Onde está a nossa fé no ser humano, que se tornou na verdade nosso pior inimigo?

Acredito que a vida é o que fazemos dela. Se nos perdemos no caminho, há de haver um retorno. Há de haver um motivo que seja bom o bastante para nos convencer de que podemos nos encontrar em algum lugar onde o caos não nos ameace tanto. Precisamos acreditar na beleza e na sinceridade, ao menos para que ainda haja emoção suficiente para nos deixar escapar do inferno em que imaginamos viver. É como disse Rimbaud: “Acredito que estou no inferno, portanto estou nele”.

Há de haver poesia em nossos olhos e desejo em nossos corações para nos permitir a simplicidade outra vez. Para nos permitir dizer o que realmente pensamos sem sermos cruéis. Para nos permitir dizer palavras amáveis aos que sequer conhecemos, mas sabemos nosso semelhante.

Ai, que saudade do tempo em que éramos ‘gente’, e isso era tudo que precisávamos ser.


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Chiclete com sabor Melancia – Sobre Fabricio Carpinejar

Li muito em 2013.  Sem falar em 2012, 11, 10…

Artigos, sonetos, romances, crônicas, letras de música e muita gente. 

É interessante pensar no pensar dos outros. Em como cada um dispõe de si uma parte nas palavras que a escrita traduz de forma tão majestosa. E estas mesmas palavras alinham-se e se rearranjam nos olhos de quem as lê imaginando cenas, ideias, opiniões que o autor propõe de forma coletiva e que ganham um ar individual em cada olhar em que despertam. O leitor, intérprete e personagem de grandes obras, é sempre apaixonado. Sua paixão está na constante busca, quase garimpeira, do que lhe chama à vida.

É assim que eu sou.

E nessas minhas ávidas aventuras literárias encontrei a obra de Fabricio Carpinejar. Imediatamente, caí de amores pelo que me fascinou com sua forma primorosa de dizer do que todos entendem, mas de uma maneira toda sua.

Seu livro Mulher Perdigueira (Ed. Bertrand Brasil) faz uma homenagem elaborada as mulheres, discriminadas por seu jeito de amar por inteiro, ao mesmo tempo em que parece se divertir com sua própria linguagem. O texto flui e encanta. Não cansa. Dá para ler quase de uma só vez e manter a vontade de reler aos poucos, apreciando.

Filho do grande escritor gaúcho Carlos Nejar, Fabrício não se resume à sua hereditariedade, mas antes reinventa-se a cada texto que compõe com a precisão e a sensibilidade de quem sabe o que diz, ou melhor, o que escreve.

O talento de Carpinejar é um bálsamo para nossos dias carentes de poesia de verdade, aquela que faz a alma tremer ao reconhecer nas palavras do poeta o que sentimos e não soubemos como dizer. Ou dissemos, sem parecer poesia.

Fabrício Carpinejar é para mim (com o perdão dos que certamente me criticarão a comparação) um novo Camões. Antagônico, sagaz, natural, ácido na medida certa, apaixonado. Enfim… Um grande escritor de nosso tempo e que certamente vale as horas consumidas em seus textos, minuto a minuto.

Fica a dica e uma degustação com sabor melancia.

Não sabemos namorar

Fabricio Carpinejar

Agora dei para mascar chiclete com sabor melancia.

Deveria esconder esse detalhe.

Mórbido para quem atravessou os 36 anos.

Mas vejo o quanto escondo o romantismo debaixo da mordida.

Sou açucarado. Meu beijo é diabético.

Logo eu que passo uma imagem seca de bolacha de sal.

Vá lá, não vou sorrir para mim de noite ou pedir a benção para os apaixonados, mas não acredito nesta história de acomodação no romance.

Que de uma hora para outra cansamos.

Não é cansaço, não é que paramos de seduzir porque conquistamos

e que não precisamos mais arrebatar com surpresas.

Não é que estamos seguros e não arriscamos mais.

Não é o conforto ou o domínio territorial.

Senão começaremos a acreditar que existe cupido.

E cupido é o mais cafona dos anjos.

Quem começa uma relação com cupido termina na fossa

repetindo os erros ortográficos das canções sertanejas.

Confio que há gente que não saiba namorar. Não sabe namorar, e pronto.

Supõe que é instintivo, natural, que é beijar, abraçar e os oceanos transportam a espuma.

Que basta amar e as relações funcionam.

Mas as relações queimam pelo pouco uso.

A eletricidade enferruja.

Há gente que jura que namorar é cumprir um expediente depois do expediente: jantar, conversar e transar.

Há gente que não quer namorar,

e sim uma amizade para dividir o que se é.

Sem tensão. Sem cobrança. Sem nervosismo.

Que tudo está definido e seguro para o final do ano,

que não pode ser perdido no próximo minuto.

Eu acabei de perder o próximo minuto.

Namoro é ambição.

É um final de semana a cada dia.

É uma delicadeza insuportável, antecipar os movimentos e agradar quando não se espera.

Gentileza em cima de gentileza, infindável.

Um cuidado para não magoar com aviso e pergunta,

com aquela educação concedida a gestantes e idosos.

Namorar requer uma atenção absoluta.

E não reclame: amar pode ser para toda a vida quando oferecemos toda a nossa vida.

Tem que se preparar, ceder, abrir espaço, oferecer, renunciar.

A inquietação nasce da paciência. A criatividade nasce de uma porta fechada.

É um extremismo terrorista. Explodiremos civis.

Durante algum desentendimento, mobiliza-se a genealogia da imaginação para escandalizar de novo.

Carro de som, helicóptero, arranjos suicidas pela janela.

Não é permitido ficar quieto, parado, para conversar a respeito.

A conversa demora.

No namoro, não existe como ser egoísta. Egoísmo se deixa no JK.

É pensar pelo outro, com o outro, como o outro.

É ter uma lista de compra de mercado na ponta da língua, junto com o chiclete de melancia:

qual a pasta de dente que ela usa, o xampu, o condicionador, o azeite, o leite que toma, o suco…

Desconhecer a geladeira da namorada é passagem direta para o congelador.

É entrar numa livraria e pensar no livro que ela vai gostar,

é entrar numa loja e pensar um vaso que combinaria com sua sala,

é entrar no cemitério e sonhar com um mausoléu para a família,

sim, planejar a morte junto – nada mais romântico.

É entrar em si mesmo e lustrar as memórias mais distantes

para parecer órfão antes de sua chegada.

Agora dei para mascar a minha boca.