Patrícia Castellani

Destilo meus versos pelas ruas, cantando em prosa o que me diz o amor. Deixando aos poucos o dia… Para que a lua me faça acompanhar.


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Quisera Eu

Morte, por que poupaste o vil?
Quisera deixar que fosse
E, na vida, uma lembrança gentil
Que permaneceria incólume e ataviada.
 
Vida, por que privar-se de ser?
Quisera a precoce e derradeira dor
E, na verdade, o tempo se pouparia
De deixar taparem-se os olhos.
 
É triste quando o ódio abre as comportas
De um coração iludido por caráter duvidoso
Que quisera ter perdido prematuramente.
 
É glorioso o apogeu do egoísmo
De gestos pérfidos que jamais haveriam
Se a morte não poupasse o vil.
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Mentira, a única Verdade

 “Achar é o mais longe que podemos ir nesse universo repleto de segredos, sussurros, incompreensões,traumas, sombras, urgências, saudades, desordens emocionais, sentimentos velados, todas essas abstrações que não podemos tocar, pegar nem compreender com exatidão. Mas nos conforta achar que sabemos.”
Martha Medeiros

Passei os últimos dias relendo “Feliz por Nada”, de Martha Medeiros (L&PM Editora). Crônicas que li pela primeira vez em 2012 parecem desabrochar novamente em suas colocações quase poéticas e sagacidade filosófica.

Em Achamos que Sabemos, Martha nos leva a refletir sobre coisas que achamos que sabemos, que conhecemos, que sentimos, que escolhemos e mais, que achamos que sabemos o que é verdade.

Talvez seja esse o nosso maior engano e que nem conforta tanto assim. Achar que sabemos. Porque olhando mais de perto, vemos que a verdade acaba sendo um conjunto teórico de tudo em que acreditamos ou queremos acreditar. A verdade de cada um é absoluta até que se torne mais uma mentira, pelo simples fato da idealização da verdade ter uma tendência voraz de nos fazer sentir melhores com o que estamos lidando e fazendo e não ter nenhum escrúpulo em mudar de rumo se isto lhe convém. Acreditar é um processo de esperança em si mesmo e no outro. Verdade é o que almejamos para ter conforto na alma. Verdades são como as juras de amor eterno que mais tarde se demonstram, como num passe de mágica, rigorosamente efêmeras e descartáveis. Como disse Martha em outra crônica, “só existem duas coisas no mundo: o que a gente quer e o que a gente não quer”. Haja Freud para nos ajudar a entender o que queremos de fato!

Sempre fui uma otimista e defensora da verdade, mas a partir daí, começo a pensar que preferimos então a mentira, que acaba sendo nossa única verdade. Isso mesmo. Correndo o risco de ser apedrejada em praça pública, afirmo que a “verdade verdadeira mesmo” não existe e nunca existiu. É tudo mentira! A mentira é certeira, objetiva e clara. Dá pra se ver de longe. Quem nunca olhou para trás e viu que tudo é uma grande, evidente e sonora mentira? Quem nunca, não é? A mentira é aquele vilão da novela das nove por quem todos se apaixonam porque ele é o que diz o que ninguém tem a coragem de dizer. A mentira não é politicamente correta. Não é ilusória. Não tem currículo nem pré-requisitos. Parece, não é bela. Mas é real e mostra sua cara sem pudores de ferir alguém ou algum sistema. Acaba sendo melhor confiar na mentira que conhecemos do que desconfiar da verdade que almejamos, porque no final somos todos uma grande mentira que inventamos a partir do que achamos que sabemos ou queremos. Um leve chacoalhão nos nossos desejos e tudo vai por água abaixo.

E será que sabemos alguma coisa? Com a palavra… Martha Medeiros.

Recomendo: Feliz por Nada, Martha Medeiros, L&PM Editora.