Patrícia Castellani

Destilo meus versos pelas ruas, cantando em prosa o que me diz o amor. Deixando aos poucos o dia… Para que a lua me faça acompanhar.


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Produção da Oficina de Crônicas – Projeto Caro Leitor, com a escritora mineira Ana Elisa Ribeiro

Ana Elisa Ribeiro

Eu e o Passarinho

Patrícia Castellani

Hoje acordei tarde, como de costume. Dia quente, sol lá fora, e perto da janela, que acabei de abrir, um passarinho. Passarinho simples, amarelinho, desses comuns de cidade, que se aproveita dos restos de área verde que ainda tem por aí. Perto da minha casa tem um parque grande, com lagoa, muitas árvores, trilha pra caminhar, e passarinhos… Pena que a gente quase nunca vai lá.

Debrucei no parapeito e fiquei uns cinco minutos – não marquei tempo de relógio, mas de distração – desfrutando da companhia cantarolante, despretensiosa e ligeira do meu amigo. Distraída nos pensamentos poéticos instigados pelo momento, fiquei ali na janela conversando com o passarinho e com meus botões ao mesmo tempo. Parece maluquice, mas papo de bicho e gente rende muita poesia. Com os botões então, nem se fala!

De repente um ruído multiforme me chamou a atenção de novo à terra e notei que, do outro lado da avenida, pessoas esperavam por um ônibus no ponto quase em frente de casa. Gente séria, cara fechada. Alguns reclamando do calor, outros da demora do coletivo, outros calados, mas com ares de muito poucos amigos. É engraçado como gente é complicada sem precisão. Se faz calor, reclamam; se chove, muito pior pra quem anda a pé, dizem. Gente tem mania de controle, de achar culpados, de reagir aos fatos, de menosprezar, de dizer e desdizer ao seu bel prazer. Parece que esquecemos que pra onde vamos, vamos todos. Não faz diferença o quanto sabemos ou trabalhamos, ou os títulos que ostentamos, ou se não somos ninguém, mera multidão.

Penso nas tantas vezes que sai de casa para o trabalho e abri aquela mesma janela – a do passarinho – e nem céu eu vi, quanto mais as cores do dia. Hoje, me dou ao “luxo” de querer não ser nada, de não ter poder, de confabular filosofia com minha Weimaraner, que senta e fica me olhando como se entendesse. Vai que entende… Às vezes mais do que gente, porque gente não para. Nascemos, crescemos e somos educados para seguir sempre em frente. Em frente pra onde, cara pálida? Se o mundo é redondo e uma hora voltaremos ao ponto onde iniciamos. Ou seja, o nada, que é o que nos nivela universalmente.

As pessoas em todos os pontos de ônibus do planeta estão esperando, para seguir pra algum lugar que talvez nem mesmo saibam qual é, e se faz algum sentido ir, quanto mais voltar. Vão como gado, porque alguém disse que é pra ir e depois voltam, pra dizer que foram. Depois do Google nosso tempo é curto, nossa grana é curta, nossa vida é curta. Temos medo de olhar para o céu e perdermos algum fato importante aqui embaixo. Temos que ficar famosos no facebook.

Sei lá! Acho melhor continuar com o passarinho, pois com ele faço poesia e não estou com pressa nenhuma de chegar ao ponto final.

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Olha pra Mim

Profundo

A sua infinitude me atrai e inquieta

Enquanto tarda o amanhecer e quero a noite

Na profundidade emocionante do seu olhar

 

Seus desejos de liberdade e o medo

Traem suas frases de efeito

Quando quis sua voz ao telefone

A sussurrar para mim meus poemas

 

O que me dizem os seus olhos

 É mais que seu sorriso desconcertante

Mais perguntas do que respostas

 

Bastava-me um segundo ou a eternidade

Bastava-me uma palavra em seus ouvidos

O desejo sentindo-se indesculpável

 

Um segundo… Uma palavra… E os seus olhos.

 


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Confabular

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Enquanto a noite não vem, vem comigo!

A morte que se avizinha é fato corriqueiro de ser

Não é pra tanto espanto ou comiseração

São dados lançados a esmo num tempo de não saber.

 

A chama deixada de lado não arde por si só

Enquanto há fogo, então, vem comigo!

A sorte que evita o fato não é assim tão certeira

A batalha, essa sim, pode ser mais vitoriosa.

 

O olhar no escuro da esquina é vento que sopra do sul

No aconchego da palavra, vem comigo!

A notícia amanhã no jornal não há de ser de ninguém

É fato consumado pelas ruas e becos da nossa história.

 

Enquanto é dia, vem comigo!

Arder no fogo, sumir no vento, confabular

Viver palavras, morrer histórias, ouvir falar.

 

(Patrícia Castellani)